Gafanhoto – Segue o Jogo

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Gênero: Hip Hop
Duração: 44 min
Faixas: 12
Gravadora: Independente

Lançado há poucos meses, o álbum “Segue o Jogo” é o primeiro trabalho solo de Gafanhoto. Com muitas participações o disco é a expressão de seus mais de 15 anos de compromisso com a música, em especial com o RAP e a cultura Hip Hop.

André Morais, Geógrafo e amante de música fez uma resenha esperta sobre esse disco, Segue o Jogo:

ÁLBUM: SEGUE O JOGO
ARTISTA: GAFANHOTO
ANDRÉ MORAIS

Precisamos olhar (e ouvir) para o Rap paranaense. Precisamos ouvir (com muito mais atenção) o Rap de Ponta Grossa. É dessa cidade de pouco menos de 400 mil habitantes, para nossos alto-falantes e fones, que está um dos presentes do Rap nacional atual. De quem estamos falando? Juliano Bittencourt Silva, A.K.A. Gafanhoto!

Com uma carreira blindada e consolidada de ‘mileanos’, dividida com os manos do Federação Repúbli-k (o qual tive o prazer de ouvir pela primeira vez em CD, há anos, em uma cópia pessoal do próprio Gafanhoto), com Produto Nosso e atualmente com o coletivo Salve Salve Mic On, lança agora seu primeiro álbum solo, ‘Segue o Jogo’, um verdadeiro presente para quem curte o Rap com um flow bem levado, beats com influência desde a Golden Era, navegando pelo Underground, pelos clássicos nacionais e pela música negra norte-americana, como o Soul e o Funk, além de composições ricas em reflexão e conteúdo.

Para quem ainda tem dúvidas de ‘quem é o Gafanhoto?’, o álbum é a materialização, um verdadeiro ‘cartão de visitas’, a abertura da porta da casa do rapper para um rolê. Já na primeira faixa do disco, ‘Para Quem Não Tá Ligado Me Apresento’, traz elementos que deixam claro qual é o universo em que este álbum foi construído ao longo dos últimos anos; a mentalidade de um paranaense com influências paternais de Minas Gerais, da periferia urbana de uma cidade média, alimentada com bons sons e com esporte. Aliás, não tem como não falar da importância demonstrada, que o basquetebol tem na vida desse mano, estando presente de alguma forma em quase todas as faixas do disco.

Ao todo, Gafanhoto nos presenteia neste trampo com 12 faixas. Um ponto bastante interessante é que, muito embora o álbum seja solo, somente em 2 faixas, a voz é guiada somente pelo MC. Amanda Kristin, imprimindo melodia, que nos faz lembrar de Faith Evans e Negra Li, comparece em 4 faixas; ‘Fluidez’, ‘Mentalidade de Campeão’, ‘Livre pra Cantar’ e ‘Café da Manhã’. Além de Amanda Kristin, Magu faz uma colab na faixa ‘Livre pra Cantar’, deixando o som ainda mais responsa, trazendo todo o cenário de ‘Cwbeats’, para o álbum.

Outras duas faixas, ‘Nascemos Reis’ e ‘Rolê de Mil’, contam com a camaradagem de longa data de Zero Meia e Stanley, que compõem, junto com Gafanhoto, a cena Rap paranaense desde o início. ‘Nascemos Reis’ ainda conta com a participação de Souz, MC do grupo Apologia Sul, também expressivo no cenário de Ponta Grossa. Swolom, da nova geração do Rap Pontagrossense aparece ao lado de Zero Meia e Stanley, em ‘Rolê de Mil’, com um beat dançante que nos faz recordar da era levada pelos gigantes Thaíde e DJ Hum.

E se depender de Gafanhoto, a expressão política ainda se faz presente de maneira muito clara no universo Hip Hop. Além de estar de modos não tão ‘explícitos’ em grande parte dos sons de ‘Segue o Jogo’, a faixa ‘Todo o Poder para o Povo’ está aí para alimentar e empoderar os manos e as minas que fazem questão da presença de letras críticas à realidade social de maneira objetiva. Zero Meia, Careca Poeta Loko (diretamente de Campo Mourão/PR), ao lado de Gafanhoto no MIC soltam esse bang com uma letra afiada e uma batida venenosa.

Obviamente, não podemos deixar de fora, de forma alguma, o enorme e de longa caminhada na cena do Rap paranaense DJ Banga, que está em 6 das 12 faixas do disco. Expressivamente, é impossível não percebermos a forte influência da Golden Era no trampo deste monstro e por que não de Grand Master Flash? Os beats arranhados, com o scratch comendo solto, ‘Pra Quem Não Tá Ligado Me Apresento’, ‘Fluidez’, ‘Mentalidade de Campeão’, ‘Todo Poder para o Povo’, ‘Heart Over Height’ e ‘Rolê de Mil’, são os raps que contam com a pesada presença do DJ.

‘Meu primeiro par de Jordans’ é 1 dos 2 sons em que Gafanhoto solta sua voz solo. Esse som é de certo modo nostálgico e de quem está na caminhada sem desvirtuar em um só momento, pelo beat e pela letra. O Rap, o basquete e o orgulho de chegar até aqui fazem dessa faixa bem especial e motivadora. Qual é o mano ou a mina que curtem basquete e que não querem colocar o pisante com a assinatura de Michael Jordan? É para a gente respeitar quem chegou onde Gafanhoto chegou.

Scilas Oliveira, ícone da música black brasileira, diretamente de Ponta Grossa, para os ‘bailinhos’ de São Paulo com a banda Mandau, divide o MIC com o MC em ‘No Meio do Salão’, o som que não poderia faltar no álbum, para nos recordarmos dos sons dos pretos da década de 70 e 80.

As últimas 2 faixas do disco trazem ‘love songs’, para ouvir com a preta ou com o preto. ‘Só nós dois Essa Noite’ traz novamente Souz. A letra apaixonada, para ouvir e cantar baixinho no ouvido de outra pessoa, junto com um beat e um flow românticos, nos convidam para uma noite com quem a gente curte. A faixa número 12, ‘Café da Manhã’, com Amanda Kristin, é uma declaração. Porque, como diria Mano Brown, vida loka também ama. E tem jeito melhor de encerrar um álbum de Rap do que com um som desses?

Gafanhoto é afiado e ao mesmo tempo sucinto. É melódico e venenoso. É o mano humilde do Paraná e paradoxalmente enorme quando se trata de falarmos sobre Rap. O MC em nenhum momento deixa de considerar quem esteve com ele durante toda a sua caminhada e isso se faz presente neste álbum. A gratidão está nas letras, à família e aos manos e minas. Na presença de cantores, MCs e DJs que, além de serem pesadas influências no cenário Hip Hop paranaense, constam em sua caminhada, claramente, como irmãos de vida. Isso é traduzido no modo simbiótico em que todas as vozes se fundem e uma só, em cada faixa solo ou com colabs.

‘Segue o Jogo’ é um álbum para tensionar o eixo Rio – São Paulo do cenário fonográfico e, sobretudo, do Rap. Aqui está um trampo de quem respira e vive deste e para este universo sem descanso, sem pausas e sem licença. Vida longa ao Hip Hop. Vida longa ao Gafanhoto. Vida longa ao mais novo disco carregado de bangs, que o Rap Nacional precisa conhecer e destilar pelas quebradas e pelos rolês.

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